Por que somos contra passe livre exclusivo para estudantes?

Corporativismo-politico1

As mobilizações de rua das últimas semanas representam um grande aprendizado autodidata. A luta pelo Tarifa Zero, como projeto popular, foi abafada por diversos interesses. Um caldo, com dezenas de reivindicações acabou diluindo a demanda original. Esse caldo, em grande medida se deve a uma mídia desinteressada em investigar a proposta do projeto. Deve-se também ao despreparo de alguns “líderes” que tomaram para si o “comando” das mobilizações, ou que de fato não estavam preparadas para explicar o projeto Tarifa Zero, ou sequer compreendem a idéia.

Na realidade curitibana, poderia haver uma contribuição muito maior para o debate nacional, mas percebe-se uma preocupação em reproduzir fielmente os passos do coletivo MPL de São Paulo, tanto nos acertos como nos erros. Fielmente? Não, nem tanto. Aqui, foi introduzida a demanda do “passe livre exclusivamente estudantil”, sendo uma das poucas diferenças. O MPL CURITIBA já lutou por passe livre estudantil, mas com o amadurecimento das discussões populares revimos esta diretriz há muito tempo.

Poderíamos simplesmente dizer que quem pagará o passe livre exclusivo para estudantes serão os demais usuários pagantes, ou seja, a conta será repassada para o próprio trabalhador, como aliás já acontece nas gratuidades a idosos, funcionários dos correios, cartel do transporte (sim, donos do transporte coletivo não pagam vale transporte a seus funcionários – o usuário é que paga), etc… Propostas foram feitas em nível nacional por Renan Calheiros. Renan foi taxado de oportunista pelo MPL SP.

Apesar deste argumento, acreditamos que a oportunidade é interessante para aprofundar outras questões que são o cerne de nosso posicionamento. A pauta implantada por partidos segue a cultura de um classismo altamente segmentado, inclusive com concorrência entre si: professores x motoristas x médicos x mecânicos x bombeiros x jornalistas, etc…

Dentro de uma realidade capitalista perfeitamente assimilada, todos estes estão em disputa para fundamentar sua maior importância como classe. A segmentação é tanta que é possível identificar concorrência dentro dos próprios sindicatos de determinada categoria, como no SINDIMOC, onde há disputa entre classe de motoristas e classe de cobradores.

Apesar disso, seríamos irresponsáveis se negássemos a atual importância do corporativismo ou sindicalismo. Sem dúvida, em nosso atual momento e realidade, não podemos ser ingênuos e precisamos reconhecer que não há maneira mais eficaz de reivindicar a partilha de recursos senão através da associação corporativista. Este corporativismo pode ser legítimo como no caso de operários que se associam contra um determinado patrão ou grupo explorador. Pode, entretanto, se tornar predatório quando assume a função de estabelecer reservas de benefício para uma determinada classe ante uma sociedade, sendo o melhor exemplo contemporâneo o caso de algumas classes que detêm o monopólio do conhecimento certificado por diplomas. Enfim, a discussão é extremamente rica e até diferenciar uma greve de um lockout já não é tarefa fácil hoje em dia.

A idéia do MPL Curitiba é de que esta intensa segmentação de classes e suas disputas não contribuem para nossa demanda, que pretende ser universalista. Dentro desta diretiva universal, não podemos admitir diferenças de importância ou benefícios diferenciados por raça, idade, crença religiosa, ofício ou divisão social do trabalho. É neste momento que afirmamos que o estudante integrado a luta social deve começar a enxergar, desde cedo, para além da cultura de classes, sendo esse um importante objetivo do projeto Tarifa Zero como construção popular.Nossa luta não é por “busão grátis” como muitas pessoas desinformadas entendem. Acreditamos no Tarifa Zero como uma proposta piloto de reorganização social , política, econômica e ambiental, de forma a fazer frente ao atual processo de competição predatória implantado em nossas mentes. Questionar algumas culturas é, portanto, fundamental nesta busca.

Essa é uma das razões pela qual temos tanta dificuldade em compor uma FRENTE com proposta corporativista.

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2 respostas para Por que somos contra passe livre exclusivo para estudantes?

  1. Luiz Schuwinski disse:

    “Acreditamos no Tarifa Zero como uma proposta piloto de reorganização social , política, econômica e ambiental, de forma a fazer frente ao atual processo de competição predatória implantado em nossas mentes. Questionar algumas culturas é, portanto, fundamental nesta busca”.

    Ficou um pouco vago o que o articulista anônimo quis dizer com: “…proposta piloto de reorganização social, política, econômica e ambiental…”!
    Olha, desde que essa “reorganização” não seja fundamentada em ideologias marxistas, totalitárias, tudo bem. Não esqueçam que nós, os mais velhos, lutamos muito para consolidar os princípios democráticos no país. Nossa democracia é claudicante, incipiente, mas não tem retorno. Regime de exceção, seja de direita ou esquerda, nunca mais.
    Causa espécie como, desde sua criação, o MPL jamais direcionou suas manifestações em repúdio às várias formas de corrupção que se instalou no governo petista.desde 2003.
    Estranho, não? Para um movimento que se diz APARTIDÁRIO, fazer ouvidos moucos e vistas grossas às falcatruas infindas do “governo” lulo-dilmista é, no mínimo, muito suspeito, contraditório.
    P.S.- Falando em respeito ao contraditório, a moça que deu uma “tortada” na cara de um representante da URBS, demonstrou com seu gesto falta de civilidade e carência argumentativa para reivindicar o que quer que seja.
    Será que a menina – quando vai ao shopping de grife fazer compras – jogaria uma torta no rosto da dona da loja? Ah, essa geração classe-média mimada…! Tsc, tsc!

    • mplcuritiba disse:

      Olá, Luiz.
      Se a proposta fosse totalitária, não estaríamos aqui, tentando fazê-la brotar no seio popular.
      Quanto a críticas a governos e governantes, elas sempre existirão, mas precisamos ir além. Cadeiras de governo são atraentes e sempre estarão ocupadas.
      Cabe a nós todos(as) desenvolver alternativas para uma sociedade verdadeiramente democrática e includente, de maneira a transcender críticas pela prática.
      A tortada, como já dissemos, é o argumento prático de que a partir de agora, CPI do Transporte Coletivo que como tantas outras termina em PIZZA, tem que começar mesmo pela sobremesa.

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